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Romaria da Terra aborda
temática quilombola
A Diocese
de Santa Maria/RS, no ano em que comemora seu centenário, acolhe no
dia 16 de fevereiro, terça-feira de carnaval, a 33ª Romaria da
Terra. É uma promoção da Igreja do Rio Grande do Sul, da Comissão
Pastoral da Terra (CPT) e da diocese que sedia o evento. Tem como
tema, Quilombos: terra, trabalho e inclusão.
A
Romaria da Terra surgiu como um instrumento de mobilização das
massas, de fortalecimento de uma mística de luta e resistência dos
povos excluídos. Ao longo de suas edições sempre abordou temas
relacionados com a terra, defendendo excluídos e empobrecidos. Neste
ano, voltando às origens, vem denunciar que a identidade étnica
tornou-se fator de subordinação social e exclusão.
É um
ato religioso que, a partir da fé e da religiosidade popular,
questiona as contradições da sociedade e aponta, profeticamente,
onde está o desrespeito com a vida que é obra de Deus. Por ser um
ato religioso que cumpre com seu papel, a Romaria é também um ato
político. Tudo o que é rezado, refletido, denunciado numa Romaria da
Terra, sempre tem repercussão política, econômica, cultural,
religiosa e social. É também um ato profético que, partindo da fé,
mexe com a sociedade e fortalece a mística de luta e resistência,
nas diversas formas de exclusão. Já o Concílio Vaticano II afirmava
que, qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da
pessoa, seja ela social ou cultural, ou que se funde no sexo, raça,
cor, condição social, língua ou religião, deve ser superada e
eliminada, porque contraria ao Plano de Deus.
A
33ª edição da Romaria tem o desafio de resgatar a mística e a
espiritualidade dos povos vindos da África, na época do regime
escravocrata brasileiro. Esses povos buscaram na organização
quilombola a força para lutar e resistir, preservando a liberdade de
ser e viver suas diferenças, com dignidade e respeito.
Da
Mãe-África, os negros não trouxeram apenas a força do trabalho, mas
também a força da fé, que resistiu ao longo da história e resiste
até hoje. Quando o negro canta e dança sua fé, enriquece sua gente.
Em sua oração os afrodescendentes buscam em Deus a força necessária,
que move suas lutas por dignidade, liberdade e soberania. Resgatar e
preservar manifestações religiosas herdadas da África é, acima de
tudo, fortalecer a luta dos brasileiros afrodescendentes. Em suas
manifestações religiosas e culturais, os negros continuam
sentindo-se filhos da Mãe-Africa e como tais desejam ser
reconhecidos em suas diferenças.
Quilombos, força de luta e resistência
Mais
de quatro milhões de negros foram arrancados de sua terra e fizeram
a travessia do Atlântico, para consolidar em nosso país, as bases do
sistema capitalista. Escravos, sem direito a nada, foram
dispersados, misturados e confundidos em seus costumes, crenças e
línguas, dificultando assim, a preservação de sua cultura e evitando
a reorganização. O povo negro resistiu e com seu suor e lágrimas
formou uma das mais belas nações do mundo, a nação brasileira. Hoje,
mais de 45% da população brasileira é afrodescendente.
No
entanto, os negros nunca deixaram esmorecer seu sonho de liberdade e
reconhecimento como povo. Muitos fugiam dos engenhos, dos castigos e
dos trabalhos forçados e embrenhados nas matas tentavam sobreviver.
Foi em 1597, no estado de Alagoas, que 40 escravos fugitivos
acamparam numa serra coberta de palmeiras para formar uma aldeia
livre do “capitão do mato” ou do “capataz”. Assim surgiu o Quilombo
dos Palmares, um exemplo de organização comunitária e igualitária,
onde não havia ricos nem pobres, nem patrões, nem empregados, onde
tudo o que era produzido destinava-se à subsistência. Foi o maior e
mais importante quilombo que existiu, tornando-se uma grande nação,
com aproximadamente 30.000 habitantes. Foi neste quilombo que nasceu
Zumbi, por volta do ano 1655, líder da resistência negra.
Quilombos
no Rio Grande do Sul
Quilombos, hoje, são comunidades negras rurais ou urbanas, habitadas
por descendentes africanos escravizados, excluídos e vítimas de
preconceitos étnico-raciais. Possuem trajetórias próprias, com
memória da ancestralidade negra relacionada com a resistência e
opressão histórica.
As
comunidades quilombolas estão presentes em todo o RS. Em alguns
locais aparecem em maior concentração, como é o caso do litoral e
da região entre as lagoas e o Oceano Atlântico. Isso também acontece
no centro do Estado, nos municípios de Jacuizinho, São Sepé e
arredores. Essas comunidade enfrentam inúmeros problemas de ordem
socioeconômica, como a dimensão reduzida das terras ocupadas e a
falta de alternativas
para
a geração de renda, uma vez que a maioria dessas áreas situa-se em
região imprópria para a agricultura. A regularização desses
territórios é uma etapa importante para reverter essa situação.
O
Quilombo da família Silva, situado em Porto Alegre, depois de 11
anos de luta, foi o primeiro quilombo urbano do país a receber a
titulação de suas terras, em 24 de setembro de 2009. O documento foi
entregue oficialmente pelo governo federal, oportunidade em que
integrantes de diversas entidades, entre elas, do Movimento Negro
Unificado, Agentes da Pastoral Negros/as, Comissão Pastoral da
Terra, Cáritas, Sindicatos e outros apoiadores realizaram um festa
comemorando a conquista. “É uma vitória que não tem como medirmos
para o povo negro não só do RS, mas de todo o Brasil. O protagonismo
dos Silva rediscute o espaço urbano e a visão que se tinha dos
quilombolas.”
O que é a
titulação de quilombos
Como
fruto da mobilização do Movimento Negro, a Constituição de 1988, no
seu artigo 68, assegurou o direito de propriedade das terras às
comunidades quilombolas. O referido artigo diz: “Aos remanescentes
das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é
reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes
os títulos respectivos”.
Mas o
que se observa, é a dificuldade de concretização do mesmo. O número
de terras tituladas é ainda muito limitado. A primeira titulação de
uma terra quilombola deu-se somente sete anos após a promulgação da
Constituição de 1988, ou seja, em novembro de 1995. O número das
titulações não melhorou e, hoje, o Brasil tem mais de três mil
comunidades remanescentes de quilombos reconhecidas, sendo 135 aqui
no Rio Grande do Sul, segundo dados do INCRA. Em setembro de 2008,
apenas 144 comunidades quilombolas existentes no país, tinham o
título de propriedade de seu território registrado.
Fonte: Jornal Voz da Terra – CPT/RS
– setembro de 2009. |