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Campanha da Fraternidade propõe uma economia a serviço da vida

A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010 é promovida em conjunto com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), como já aconteceu nos anos de 2000 e de 2005. Fazem parte do Conic, atualmente, a Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia. É, portanto, na história da Campanha da Fraternidade, desde seu inicio em 1964, a terceira realizada de forma ecumênica. Tem como tema Economia e Vida e lema, Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24). Seu principal objetivo é colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura e da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum, em vista de uma sociedade justa e sem exclusão.

A vida ameaçada

O texto-base da CFE/2010 afirma que um bom número de brasileiros, na última década, saiu do estado de miséria, mas o Brasil continua com elevados níveis de pobreza e com enorme desigualdade na distribuição de renda. Recorda que em 2007 existiam no Brasil 10,7 milhões de indigentes, ou seja, de famintos, e 46,3 milhões de pobres sem acesso às necessidades básicas de alimentação, habitação, vestuário, higiene, saúde, educação, transporte, lazer, entre outras.  Diz ainda que, a população brasileira que vive em estado classificado de extrema pobreza continuará a ser indigente. Pessoas nascidas economicamente indigentes correm o risco de assim continuar. Tais pessoas não conseguem, de modo geral, quebrar esse círculo vicioso, a não ser que a sociedade se organize de outro modo, colocando o ser humano acima dos interesses do mercado.

Segundo o Diretor Geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (FAO), a crise silenciosa da fome cria um risco grave à paz e à segurança mundial. Precisamos urgentemente formar um consenso amplo para a erradicação total e rápida da fome.

Deus não criou a pobreza e a realidade perversa em que o mundo se encontra é fruto de decisões políticas equivocadas e do egoísmo individual, social e estrutural. Irma Rita Petra, economista e professora da PUC-GO, chama a atenção para a existência da pobreza, de pessoas pobres e da natureza empobrecida como o sinal mais claro de que a humanidade se desviou do Projeto do Reino de Deus. Por causa disso, diz ela, os pobres são os preferidos de Deus, porque foram abandonados por seus irmãos e precisam mais do que todos os outros do apoio dele. Continua dizendo que se queremos ter paz de verdade em Deus é fazendo a vontade dele que a encontramos e não na acumulação de riquezas. Ter mais do que o necessário para uma vida decente enquanto outros não têm e veem a vida ameaçada e sua dignidade pisada no chão, é roubo. Deus não aceita nossas orações e nossas ofertas se não cuidarmos de nossos irmãos e irmãs pobres, se não fizermos o que podemos fazer para criar sociedades inclusivas.

A CFE ressalta os valores da justiça, da solidariedade e da fraternidade, que estão acima da economia. Convoca os cristãos e pensar e a reorganizar a economia a partir das pessoas, especialmente dos pobres, partindo do princípio do bem-comum e não a cultuar o consumo como um valor em si mesmo. Criar uma economia a serviço da vida é um processo que exige conversão individual e coletiva, de responsabilidade de cada pessoa, com o empenho de todos.

Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro

O lema da Campanha é uma frase dita por Jesus no Sermão da Montanha, registrada no Evangelho de Mateus. Neste momento Ele apresentava ao mundo e a seus discípulos uma nova ética de justiça, partilha e solidariedade. Trazendo para os dias de hoje seria fazer da economia um serviço à dignidade humana e não à ambição. Jesus propõe uma escolha ente os valores do Reino e a rendição ao dinheiro, visto como valor absoluto dirigindo a vida.  O problema não está no dinheiro em si, mas sim, no uso que dele se faz.  É um objeto das relações de troca e deveria servir para o desenvolvimento humano, permitindo a sociedade  gerir seus meios de pagamento.  No entanto, a ganância humana o transformou em tesouro e poder, sendo, muitas vezes, o critério absoluto das decisões a serem tomadas, seja no campo pessoal, institucional ou governamental. Enquanto o sonho de uma sociedade é o enriquecimento e, consequentemente, o acúmulo de bens,  essa  inversão de valores acontece. A vida das pessoas, sua dignidade e bem-estar ficam em segundo plano, dando prioridade ao lucro e ao mercado. Uma economia que tem esta base, afasta-se radicalmente do projeto de Deus, expresso na Bíblia. Pode-se compreender então, com maior clareza, as palavras de Jesus, Onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração (Mt 6,21).

Onde está o dinheiro

Quando Jesus diz que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, ele está criticando uma situação já presente no Império Romano, de fazer do dinheiro algo equivalente ao status de Deus, ao status divino. Por isso que ele diz que não se pode servir aos dois ao mesmo tempo. Aí vem uma coisa importante, na crítica a essa idéia que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Nós precisamos tomar cuidado para não desqualificar o dinheiro e a economia como um todo. Jesus logo depois vai dizer também que é preciso usar o dinheiro para fazer “amigos do Reino (Lc 16,9).

O dinheiro não pode ser considerado como fim último, mas como instrumento de uma vida boa para todos. Então, se nós somos movidos por uma fé em Deus, nós buscamos o reino de Deus, que é uma vida digna e solidária para todas as pessoas. E o instrumento para tornar isso possível é também o dinheiro e também, no tempo de hoje, o mercado. Onde há dinheiro, há mercado. Então a nossa crítica à sociedade capitalista não pode ser assim “eu sou contra o dinheiro, eu sou contra o mercado, eu sou contra tudo o que lembra estas duas coisas”. Mas temos que perguntar se nós fazermos do dinheiro e do mercado o fim último da vida da sociedade ou instrumento para gerar uma vida mais digna e humana para todas as pessoas.

Jung Mo Sung, professor de ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Coleta da solidariedade

A Campanha da Fraternidade  se expressa, concretamente, pela oferta de doações em dinheiro na coleta da solidariedade. É um gesto concreto em âmbito nacional, feito em todas as comunidades cristãs, paróquias e dioceses. A coleta será realizada no dia 28 de março, Domingo de Ramos, ou conforme determinação da comunidade.

Dos recursos arrecadados, 60% permanecem nas dioceses para serem partilhados nos projetos sociais e 40% serão enviados para o Fundo Nacional de Solidariedade. Na Diocese de Passo Fundo, o gesto concreto será destinado  à Associação das Mulheres Amigas da Vila (AMAV), localizada na Vila Donaria, na Paróquia São Judas Tadeu, que desenvolve o Projeto Reciclando para a vida. As mulheres estão organizadas há mais de cinco anos como um grupo de economia solidária, que divide igualmente entre si o valor da venda dos produtos, sendo que uma parte igual fica para o caixa da associação.

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