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A presença indígena na
Diocese de Passo Fundo:
resistência cultural e desafios pastorais
A
presença indígena na Diocese é muito antiga. Antes da conquista
violenta realizada pelos invasores europeus, aqui e em todo o
continente latino-americano, já habitavam inúmeros povos indígenas,
cada qual com sua língua, cultura e religião.
O povo Guarani
No caso da região de Passo Fundo, no
século XVII tornou-se célebre a Redução de Santa Tereza, formada por
indígenas Guaranis. Foi fundada pelo jesuíta padre Francisco
Jiménez, em 1632, possivelmente na região do Bairro Boqueirão, na
cidade de Passo Fundo. Chegou a reunir cerca de 4 mil indígenas,
liderados pelo cacique Guaraé, tornando-se uma magnífica povoação
para a época.
Entretanto, em 1637, às vésperas do
Natal, a Redução de Santa Tereza foi atacada e destruída pelos
bandeirantes paulistas, vorazes por aprisionar índios para o
trabalho nas lavouras paulistas e saquear o que tivesse algum valor
econômico. Levaram como escravos um grande número de indigenas. Os
que resistiram foram assassinados barbaramente. Os que conseguiram
fugir, transferiram-se para a atual região das Missões onde, anos
mais tarde, constituíram-se os Sete Povos das Missões, que também
foram completamente destruídos na década de 1750, quando Sepé
Tiaraju tombou mártir, junto com milhares de indígenas Guarani.
O povo
Kaingang
O povo Kaingang ocupa a tradicional
região compreendida pelos estados de São Paulo, Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul e os contatos sistemáticos com as
frentes de expansão colonizadoras foram posteriores, na década de
1840. No RS, em 1848 teve início o processo de catequese e
civilização, patrocinado pelo Governo Provincial e conduzido pelos
missionários jesuítas. Dentre os aldeamentos constituídos, um
localizava-se na região de Passo Fundo, o Aldeamento de Campo do
Meio, nas proximidades da atual localidade que leva o mesmo nome.
Foi fundado pelos padres Pedro Laderra e Miguel Cabeza.
O
povo Kaingang teve um enfrentamento muito violento com as novas
frentes de expansão colonizadoras. Com a constituição do Império do
Brasil em 1822, a estratégia era a ocupação dos territórios e
ampliação das atividades produtivas, de modo especial a agricultura
e a pecuária. As autoridades não consideravam a presença das
populações indígenas e autorizavam o loteamento dos territórios em
colônias, que eram vendidas aos imigrantes. Para vencer a
resistência dos Kaingang foi desenvolvida a política de aldeamentos,
que se tornaram uma espécie de campo de concentração. Os indígenas
que resistiam eram caçados e assassinados por equipes paramilitares
chamadas de bugreiros, que recebiam seu soldo pela quantidade de
indígenas aprisionados ou assassinados. Geralmente a história
contada pelos vencedores apresenta os indígenas como selvagens e
violentos, mas esquecem destas atrocidades cometidas contra eles.
Uma história
de violência e submissão
A presença indígena na região da
Diocese de Passo Fundo precisa ser analisada a partir da história e
da trajetória destes dois povos indígenas: Guarani e Kaingang. O
historiador Ney d’Avila assim descreve a presença indígena em Passo
Fundo: desde o primeiro momento da fixação do elemento
luso-brasileiro em terras passo-fundenses o indígena foi
hostilizado como inimigo número um a ser expulso ou abatido. Esta
hostilidade não visava apenas a ‘segurança’ dos campos e das trilhas
tropeiras, mas também, a possibilidade do homem ‘branco’ incursionar
pelos matos. Na disputa pelos campos, mas especialmente pelas matas
passo-fundenses, os índios foram totalmente perdedores. A maioria
foi fisicamente eliminada ou banida para outras terras onde melhor
sorte não lhes esperava. Uma minoria sobreviveu aculturada, adaptada
aos ‘civilizados’, destribalizada ou confinada a ‘reservas’ de
diferentes tipos.E ele conclui: terminada de fato a luta não está:
ainda em nossos dias os aldeamentos indígenas oficiais que restaram
continuam a sofrer pressões de agricultores e madeireiros (Passo
Fundo: terra de passagem, p. 65).
Verifica-se que a trajetória indígena
foi marcada pela violência, preconceito, expropriação territorial e
insensibilidade ao seu universo religioso e cultural. É emblemática
a manifestação do indígena Guarani Marcal Tupã’i, no discurso feito
ao papa João Paulo II, por ocasião de sua visita ao Brasil, em 1980:
Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas. Dizem que
o Brasil foi descoberto; o Brasil não foi descoberto não, Santo
Padre, o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa
é a verdadeira história.
Os Kaingang foram os únicos indígenas
que sobreviveram na região da Diocese de Passo Fundo. Vivem hoje em
três terras indígenas (TI): TI Ligeiro - Charrua, TI Carreteiro -
Água Santa e TI Serrinha - Ronda Alta. Também estão presentes em
três acampamentos: Carazinho, Mato Castelhano e Campo do Meio, que
foram criados em vista da retomada de territórios tradicionais, dos
quais foram expulsos no passado.
Assim,
apesar da história de violência cometida contra os povos indígenas,
eles sobreviveram, resistem e estão presentes na Diocese, no Brasil
e na América Latina. Esta presença se constitui num importante
desafio à ação missionária realizada pela Diocese e pelas paróquias,
especialmente aquelas com comunidades indígenas.
A Pastoral
Indigenista
Este é o nome dado à ação missionária
desenvolvida pela Igreja Católica junto às comunidades indígenas.
Nos primórdios da evangelização no Brasil, a postura da Igreja em
relação aos povos indígenas nem sempre foi evangélica, tornando-se
aliada e colaboradora no processo de submissão e subordinação às
ordens governamentais, que dizimaram inúmeros povos. Foi muito mais
catequização e cristianização que evangelização. O papa João Paulo
II, na comemoração do Jubileu do ano 2000, com muita coragem e
profetismo pediu desculpas por esta postura da Igreja no passado, o
que serve de inspiração para não repetir os erros no presente
(Homilia 12/03/2000).
A partir do momento em que a Igreja
Católica se dispôs a uma revisão de sua ação missionária, uma das
áreas que passou por um processo de mudanças foi a Pastoral
Indigenista. O desafio que passou a ser colocado foi de uma
evangelização inculturada, que prime pelo respeito às manifestações
religiosas e culturais, pelo diálogo e que permita os povos
indígenas tornarem-se sujeitos do processo de evangelização.
A Pastoral Indigenista tem o desafio
de testemunhar um Deus encarnado, que quer a vida em abundância para
todos. Precisará promover a integração da realidade indígena no
plano paroquial e diocesano e as paróquias precisarão marcar uma
presença solidária, amiga e fraterna na comunidade indígena. A
Pastoral Indigenista precisará ajudar a romper o preconceito e a
exclusão em relação aos povos indígenas e auxiliá-los nas suas lutas
pela terra, por um sistema de saúde e educação diferenciada, na
efetivação de uma política indigenista que garanta seus direitos.
Tudo isso precisa ser realizado enquanto obra de evangelização, como
testemunho de uma Igreja Samaritana, enviada por Jesus de Nazaré, o
Bom Pastor, que quer a vida para todos os povos.
Epiau
Nos dias 13 e 14 de abril aconteceu,
em Passo Fundo, o 27º Encontro da Pastoral Indigenista do Alto
Uruguai - Epiau, que reuniu diversos agentes da Pastoral Indigenista
das dioceses de Passo Fundo, Vacaria, Erechim, Frederico Westphalen
e Chapecó. Teve como objetivo revisar e avaliar a ação missionária
realizada e projetar novas ações. O Epiau foi realizado pela
primeira vez em 1983 e tem se tornado um espaço importante de
reflexão, planejamento e efetivação da Pastoral Indigenista.
Semana dos
povos indígenas “Terra: mercadoria ou vida?”
De 18 a 24 de abril passado foi
celebrada a Semana dos Povos Indígenas. Teve como tema a reflexão
sobre a terra: deve ser vista como mercadoria ou vida? Os povos
indígena têm uma visão completamente diferente dos não-indígenas em
relação à terra. Eles a chamam de Terra-Mãe. É tratada como um
organismo vivo, um espaço de vida e reprodução da cultura, da
religião e da sabedoria ancestral. Não se trata apenas de uma
mercadoria, que pode ser comprada, vendida e explorada, maltratada
pelos agrotóxicos, pela agricultura predatória e pela constituição
de grandes propriedades de agronegócio.
Tem se tornado comum atualmente a
constituição de acampamentos indígenas em vista da recuperação de
territórios tradicionais. Isso não raro tem se tornado motivo de
conflito entre indígenas e não-indígenas. Contudo, é bom que fique
claro que não desejam retomar todo o território nacional, mas
recuperar apenas aquelas áreas onde estavam instaladas as aldeias, o
cemitério, a casa de oração..., chamadas áreas de ocupação
tradicional, das quais foram expulsos de maneira arbitrária por
políticas inconstitucionais.
A demarcação das áreas indígenas, além
de garantir a reprodução social e cultural destes povos, também
representa uma importante atitude de preservação do meio ambiente,
pois se tornam espaços onde as matas se revitalizam e muitas
espécies de animais encontram guarida. |