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01.08.2009
Da indiferença à evangelização

O relato que segue é fruto de uma experiência de evangelização que está sendo construída no centro da cidade de Passo Fundo, RS. Não se trata de projetar a iniciativa como forma de inspirar seguidores, mas de contar um pouco sobre o que pode brotar de pequenas atitudes, de muita persistência e de uma dose considerável de fé. Seguindo a lógica indicada pelo Documento de Aparecida, valorizamos pequenas iniciativas como espaços para experimentar o sabor da vida e o cultivo da fé.

Em busca do diálogo

Inelso e Edi eram novos na cidade e se sentiam sozinhos mesmo morando ao lado de 20 apartamentos do edifício Renoir, localizado na Rua Sete de Setembro, esquina com a Avenida Brasil. Dona Edi conta que, em cada tentativa de manter um diálogo com os vizinhos, era identificada como “vizinha do apartamento número tal”. Não dava tempo nem para se apresentar, dizer o nome, saber com quem estava falando.

As primeiras conquistas foram receber um cumprimento sorridente e os votos de um “bom trabalho”, “tenha um bom dia”. Embora ainda fosse pouco, estava nascendo uma esperança de romper a barreira da indiferença. Depois do nome, houve abertura para a conversa e até algumas informações sobre o trabalho. Rápidos flashes sobre a família passaram a fazer parte dos encontros no elevador.

Não havia quem estranhasse uma abordagem inesperada, mas a confiança foi tomando conta e a simpatia passou a fazer parte de qualquer viagem pelo elevador. Aqueles longos segundos de silêncio e cara fechada se transformaram em breves, mas esperados momentos de diálogo e até de companheirismo.

O cultivo da fé

Com o sinal positivo para conversas e uma simpatia no olhar, vieram as estratégias. Mensagens religiosas e de encorajamento para enfrentar o dia eram deixadas no elevador. Estas mensagens também passaram a fazer parte do íntimo das pessoas do prédio e auxiliaram no ato de criar relações fraternas.

Aí vieram novas barreiras a serem rompidas. Abrir a porta do apartamento para o vizinho, convidar para entrar, partilhar uma cuia de chimarrão, uma palavra e até o alimento, não foi algo simples, mas, a partir daí, havia mais motivos para a partilha e o cultivo da fé. Até a utilização do salão de festas do prédio para um encontro, uma confraternização e uma oração foi outro passo significativo.

Quando a vida começou a ser partilhada, não faltaram motivos para pedir e agradecer. Eram trabalhos de aula ou a saudade da família por parte dos estudantes, doenças ou situações-limite de moradores ou até de familiares distantes. A relação de comprometimento, de ficar na torcida pelo bom desempenho ou o desejo de cura, misturavam-se à oração. Parecia exatamente este o lugar da fé e do cultivo pessoal. A comunhão de vida era celebrada.

O espaço para o serviço

O espaço da oração passou a ser este espaço de partilha, de vida e das inquietações das pessoas. A partir daí, a solidariedade passou a mobilizar os moradores do edifício ao compromisso para além do prédio. Ao tomarem conhecimento de uma empresa da cidade que não estava conseguindo pagar o salário dos funcionários, os moradores se mobilizaram e fizeram coleta para auxiliar - um pouquinho - os funcionários que estavam sem receber salário.

As conversas entre os moradores provocaram o envolvimento de pessoas do prédio na atuação pastoral junto à paróquia, e esta atuação tornou o grupo ciente de outras emergências que poderiam ser atendidas. Alguns jovens se interessaram e fizeram o processo de catequese de adultos. Algumas realidades de carência foram descobertas e alguns jovens acompanhados, inclusive para vagas de trabalho, conseguindo dar outros rumos à própria vida e assim por diante.

Um dos momentos mais gratificantes para o grupo do edifício foi quando os trabalhadores da empresa, que estava em situação crítica, voltaram a receber salário e devolveram a ajuda para repassar a pessoas mais carentes. Esses operários chamaram as pessoas do prédio para participarem da entrega das doações, como forma de retribuir o gesto inicial. Criou-se uma pequena corrente de solidariedade.

É apenas uma iniciativa, mas revela que a realidade urbana também encontra seus caminhos para o cultivo da fé e da vivência do Evangelho. Os autores da iniciativa acentuam que o trabalho deu frutos porque o desafio foi aceito pelos moradores, que hoje, mais que vizinhos, são amigos e irmãos.

Pe. Fábio de Morais, Pe. Ivanir Rodighero e Neri Mezadri

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