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Família, suas novas
configurações e suas faces atuais
A
última década despertou no governo, na igreja e nos meios de
comunicação um questionamento em relação à família e seu papel para
e na sociedade. Para os brasileiros a família apesar de
tudo,conforme pesquisas, continua a instituição mais positiva e
confiável, acima da igreja e do estado. Ela é valorizada, buscada,
responsabilizada e cobrada por sucessos e fracassos nas funções de
formar as novas gerações de cidadãos.
A partir da constituição federal de
1988, a visão e compreensão da família mudou muito. O conceito
básico situa a família como uma organização a partir dos laços
afetivos e não mais a partir da hierarquia tradicional. As novas
configurações familiares, nem imaginadas poucos anos atrás, hoje são
cada vez mais aceitas e reconhecidas.
O escritor Lobo,P.L.N. em A
Repersonalização das Relações Familiares, diz, A família
patriarcal, que nossa legislação civil tomou como modelo, ao longo
do século XX entrou em crise, culminando com sua derrocada, no plano
jurídico, pelos valores introduzidos na Constituição de 1988. A
família atual está matrizada em um fundamento que explica sua função
atual: a afetividade.Assim, enquanto houver affectio haverá
família, unida por laços de liberdade e responsabilidade, desde que
consolidada na simetria, na colaboração, na comunhão de vida não
hierarquizada. A família é o núcleo natural e fundamental da
sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.
Família e seu
papel na sociedade
A moldagem diferente daquela
idealizada como sendo a “família-padrão”, modelo único, absoluto,
recebe por força de lei, prioridade na garantia de proteção. Da
forma como a sociedade está organizada, ela depende da família para
atender, prover, cuidar, transmitir valores e construir cidadãos. O
papel da família continua o mesmo, apesar das diferentes formas de
constituição.
À família são atribuídas muitas
qualidades, mas duas são essenciais como instituição: espaço de amor
e diálogo. O amor-afeto como base de constituição, reconstituição
dos arranjos familiares e o diálogo como qualidade mais desejável
para manutenção, reorganização da relações familiares entre todos os
subsitemas.
Falar de família hoje é falar de
mudança, de novas configurações, é falar de novas relações. Mas,
algo chama a atenção quando se fala com as mulheres, elas expressam
o que as pesquisas mostram. Existe uma visão nova de família,
contudo na prática, o modelo patriarcal está presente com muita
evidência. Para as mulheres, a saída para o mercado de trabalho, não
implica deixar os afazeres domésticos, mas sim realizar uma terceira
jornada de trabalho. São elas que continuam a participar das
reuniões nas escolas. São elas que participam de reuniões nas
comunidades. São elas que assumem o cuidado pelas lições de casa.
Enfim, mudou o modelo de família, mas não mudou a prática do
comprometimento. Uma parte significativa de homens continua não
assumindo a sua parcela de participação na educação e formação. É um
desafio para as novas gerações criar formas e maneiras de dividir as
responsabilidades na educação e no cuidado com os filhos.
A família e as
novas tecnologias
A família sofre interferência, não
apenas pelas suas composições diferentes, necessidade de
reorganização afetiva e emocional, mas em especial por alguns
elementos que agem diretamente na vida das pessoas, é a eletrônica
com suas novas tecnologias e as drogas.
A passagem do milênio se caracteriza
pelo grande avanço tecnológico, onde os modelos e as marcas mudam de
formato, de apresentação em poucas semanas. É uma das situações que
desafiam os pais. Ficam se questionando sobre o seu papel de pai e
de mãe, diante das mudanças rápidas e eles sem entender muito das
tecnologias que estão ao alcance de quase todos os jovens e
adolescentes. É a internet que ocupa boa parte do tempo, sendo o
meio pelo qual os adolescentes se comunicam, criando os seus espaços
próprios com as mais diferentes identidades. Formam as suas
comunidades virtuais, onde se comunicam por horas, mas muitas vezes
tem muita dificuldade de falar de pessoa para pessoa, olhando olhos
nos olhos.
O computador é uma ferramenta de
trabalho importante e estudar sem ele está cada vez mais difícil. As
escolas estão em sua maioria equipadas com laboratórios de
informática. São as tecnologias facilitando o acesso as informações,
aproximando continentes, interligando os países e vinculando
pessoas. Estamos longe de usar as novas tecnologias como ferramentas
em favor do ensino e da aprendizagem. Temos as infra estruturas, mas
pouco usadas pelos professores, uma por nem sempre saberem usar e
outra por não acreditarem que o computador é um grande aliado do
professor, um facilitador da aprendizagem. Existe um caminho a ser
percorrido, para que as máquinas de fato possam ser instrumentos a
serviço da educação.
Como ficam os
pais?
A escola é um espaço privilegiado de
aprendizagem no uso das tecnologias e existem dificuldades. Muito
mais difícil é para os pais poderem acompanhar, lidar e entender
estas ferramentas. Com facilidade os adolescentes e os jovens podem
enganá-los, pois para eles tudo é simples, mas para os pais tudo é
complicado. Os adolescentes nasceram em plena era da tecnologia, já
os pais nasceram antes e foram entrando nesta área aos pouco e com
muita resistência, pois tudo é novo e difícil.
Querer negar, ignorar e até querer
impedir o acesso é perder o contato existencial com os jovens e
adolescentes. É importante refletir sobre em como se adquire
informações rápidas, mas isto não quer dizer experiência. Os pais,
mesmo sendo uma família reconstruída, tem um saber inconfundível,
que é a experiência de vida e por meio desta, são capazes de passar
os valores do amor, da construção de um projeto de vida, do sentido
da vida.. Os pais são indispensáveis no exercício de seu papel, não
apenas como limitadores, e sim como propositores de valores. Valores
que é necessário resgatar e revitalizar. A máquina não ensina a ser
gente, esta é uma tarefa humana e só humanos podem fazer isto, não
importa se são do mesmo sangue e se tem laços de sangue.
Novas
estruturas da família
O divórcio traz consigo a
dissociação do subsistema marido-mulher, mas não do sistema pai-mãe.
Muitos são os conflitos que os casais vivem em relação aos filhos,
criando um sistema disfuncional, onde pais e filhos sofrem, por
discussões estéreis. As perdas, em especial para os filhos são
grandes, facilitando o aparecimento de patologias e a necessidade de
intervenção de um profissional.
A perplexidade é grande quando me
ponho a pensar em minha experiência profissional, no atendimento de
casais e filhos, em fase de separação ou já separados. Observamos,
que o sofrimento é maior diante das brigas intermináveis, do que
diante da separação propriamente dita. Os filhos não apenas sofrem
presenciando as desavenças, mas muito mais quando são usados como
meio de comunicação entre o casal separado e são objeto de disputas
judiciais pela guarda dos mesmos. Estas situações se refletem na
vida emocional dos filhos e no seu rendimento intelectual.
O divórcio sempre foi visto como a
principal ameaça para a família nuclear tradicional. Hoje ele é uma
realidade presente em toda a sociedade e em todos os espaços. A
Igreja continua a se opor ao divórcio, pensando assim proteger a
família, contudo como já dizia padre Charbonneau, em 1983, na Folha
de são Paulo Igreja e os Divorciados: o divórcio não deve
ser admitido a priori como remédio mais adequado. Mas, ele está aí e
não apenas como malogro pessoal, e sim como reflexo social de um
mundo no qual o futuro é incerteza, tudo gira em torno do hoje, tudo
é descartável. O divórcio espreita a todos os casais e atinge um
grande número deles. Mas a solidão não é o destino da pessoa humana,
por isso a busca de uma nova relação para fugir da solidão, não pode
afastá-los de Deus e aí está a essência do trabalho da igreja, não
apenas preocupar-se com as novas configurações familiares, mas
ocupar-se delas com carinho e compreensão como Jesus fez e disse,
Não são os sadios que precisam de médico e sim os doentes.
Psicólogo Gervasio Backes, terapeuta
de família e de casal |