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01.09.2009
Igreja repassa
terras aos assentados de Nova Ronda Alta
Foi
no interior do Rio Grande do Sul, em Ronda Alta, diocese de
Passo Fundo, que surgiu um movimento que viria inspirar a causa
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Essa história,
que iniciou há cerca de 28 anos, continua sendo escrita. No dia
13 de julho de 2009, um grupo de famílias remanescentes teve a
posse oficial das terras, na região de Nova Ronda Alta.
Páginas amareladas pelo tempo,
guardadas no arquivo da Cáritas, trazem documentos que cobrem
todo o processo. Foi em janeiro de 1981 que, segundo um
documento no qual consta um projeto da Igreja Católica sobre o
assunto, centenas de famílias de agricultores instalaram-se na
beira da estrada, em Ronda Alta, na localidade de Encruzilhada
Natalino. O fato suscitou interesse da mídia nacional e
internacional. O agrupamento, que atingiu o número máximo de 600
famílias, em maio daquele ano, reivindicava terras para plantar.
A maioria dos acampados, diz o projeto, eram meeiros,
arrendatários, parceiros, assalariados e ex-posseiros da Reserva
Indígena de Nonoai. Todos eles resistiam ao êxodo rural.
O que aconteceu no dia 13 de julho
(a passagem das terras de Nova Ronda Alta para os agricultores
que as utilizam desde os anos 80) é consequência de uma ação
extremamente significativa da Igreja na época. O projeto que
está no arquivo da Cáritas Diocesana de Passo Fundo trata disso.
A situação dos agricultores na beira da estrada era precária e,
assim, era preciso agir de alguma forma. A Igreja organizou,
então, uma campanha para angariar recursos, os quais seriam
utilizados na compra de terra para assentar, provisoriamente, os
colonos, garantindo-lhes condições mais humanas. De acordo com
Luiz Costella, atual coordenador da Cáritas, a ação mobilizou
inúmeras pessoas e instituições, e doações vieram de diversas
partes do Brasil e do mundo. Uma lista de todos os que doaram
está presente nos arquivos da instituição.
Com o dinheiro, foi comprada uma
área de 108 hectares, na localidade de Papudo, em Ronda Alta. As
157 famílias que restavam na beira da estrada assentaram-se no
novo acampamento. Ainda, segundo Costella, “foi criada, em
Papudo, uma agrovila chamada Nova Ronda Alta. É claro que não
tinha terra para 157 famílias em 108 hectares de área, mas o
governo do estado começou a assentar essas famílias em vários
lugares do Rio Grande do Sul, e lá acabaram ficando apenas
dez”.
Os objetivos do assentamento estão
no documento do projeto: melhorar as condições dos barracos,
permitir uma lavoura de subsistência, permitir a criação de
galinhas e porcos, melhorar as condições de água potável e de
higiene do acampamento, permitir a instalação de um Centro
Comunitário, com escolas, atendimento médico e orientação
religiosa, além de local de lazer sadio. Na época, não se sabia
quantas pessoas permaneceriam definitivamente na terra. Ela
ficou, então, escriturada em nome da Cáritas Diocesana de Passo
Fundo, relata Luiz. “Desde 1994, o bispo dom Urbano Allgayer e a
diretoria da Cáritas decidiram passar essa terra para os
colonos. Não havia sentido permanecer em nome da instituição, se
fora comprada para reforma agrária. A partir daí, o pessoal
começou a encaminhar a documentação para as escrituras. O
processo demorou mas, no dia 13 de julho/2009, a senhora Fátima
Cecconello, diretora administrativa da Cáritas Diocesana, foi ao
Cartório de Ronda Alta para fazer a assinatura das escrituras,
repassando a terra para os assentados”, conclui o coordenador.
Até essa data, era necessário uma carta de anuência para que as
dez famílias pudessem trabalhar na terra. Por isso, para as
pessoas envolvidas foi um dia histórico. Concluiu-se,
finalmente, esse longo processo para a diocese. |