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Concedemos que o venerável servo
de Deus, João Paulo II, papa, de agora em diante, seja chamado de
beato e seja celebrado no dia 22 de outubro
Logo depois que Bento XVI leu a fórmula da
beatificação, um grande retrato de João Paulo II foi exposto na
fachada da Basílica, sob os aplausos da multidão. Em seguida Bento
XVI recebeu a relíquia que contém o sangue de Karol Wojtyla e a
beijou.
Multidão acompanha com emoção
Mais de um milhão de peregrinos de
várias partes do mundo estiveram em Roma, no domingo, 1º de maio,
para acompanhar a cerimônia de beatificação do papa João Paulo II.
A Praça de São Pedro focou pequena e milhares de pessoas não
puderam chegar ao local e tiveram que se dirigir
para outras áreas
da cidade de Roma, onde foram instalados telões, para acompanhar a
cerimônia.
O evento histórico não tem
precedente, já que nos últimos mil anos nenhum papa proclamou seu
antecessor como beato. A celebração ganhou destaque especial também
por ser o Domingo da Divina Misericórdia, festa criada por João
Paulo II, particularmente devoto e ligado à santa polonesa Faustina
Kowalska, religiosa falecida em 1938 e canonizada pelo próprio João
Paulo II em 30 de abril de 2000. A data escolhida para a
beatificação é a celebração litúrgica mais próxima da morte de João
Paulo II, que faleceu na véspera da festa da Divina Misericórdia em
2005, celebrada anualmente no primeiro domingo depois da Páscoa.
A cura da freira
A freira Marie Simon Pierre nem tinha 50 anos e
sofria da mesma doença do pontífice. O mal de Parkinson uniu a
freira francesa e o Papa polonês. A doença da freira francesa foi
descoberta em 2001. Quatro anos depois, em 2005, ela já estava com a
parte esquerda do corpo comprometida pela doença neurológica que,
com o tempo, pode até limitar os movimentos mais essenciais como
mastigar, engolir e até respirar. Ela vivia e trabalhava numa
maternidade católica, em Aix-en-Provence. Foi lá dentro que as
religiosas evocaram o grande Papa, mas a saúde da freira piorava.
Irmã Marie anunciou à sua superiora que não tinha
mais forças para continuar trabalhando. Esperançosa, a madre
superiora respondeu que João Paulo II ainda não tinha dito a ultima
palavra. A freira relembra aquela noite: Ela me pediu para
escrever o nome de João Paulo II num papel. Eu não escrevia mais
diante dela. Quando eu precisava escrever alguma coisa, eu punha o
caderno no meu colo, porque eu tremia muito, não era fácil pra mim.
E disse pra ela que não conseguia escrever. Mas ela insistiu. Então
eu peguei a caneta e escrevi. E diante deste escrito ilegível, então
eu escrevi João Paulo II, mas era realmente ilegível, diz,
emocionada, a freira.
Ela se levantou da cadeira, saiu e disse: Talvez a
gente possa acreditar em um milagre. Naquela madrugada o braço
da irmã Marie parou de tremer. Eu me levantei às 4h30 e me
levantei como se não tivesse nada. Eu senti alguma coisa, que eu não
era mais a mesma, que havia uma alegria interior, uma grande paz. E
também uma grande leveza e liberdade nos meus gestos e no meu corpo,
destaca a irmã.
Às 6h, ela foi encontrar as irmãs na capela. No
caminho para a capela, eu senti meu braço esquerdo, que parecia
morto, que ficava estendido ao lado do corpo, e percebi o balanço
desse braço. Ao andar, o meu braço balançava de novo. Eu tive a
certeza de que estava curada. Era realmente uma certeza, alguma
coisa me levava a dizer que tudo tinha acabado. E senti uma grande
felicidade, uma grande paz, diferente do normal.
A cura da doença, que a Igreja reconheceu como
milagre, aconteceu dois meses depois da morte de João Paulo II. A
fama de santidade já era conhecida por cardeais e fiéis. As virtudes
como homem, João Paulo II foi mostrando aos poucos.
Sermão do papa Bento XVI
Amados irmãos e irmãs
Passaram já seis anos desde o dia em que nos
encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do
Papa João
Paulo II. Então, se a tristeza
pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de
que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta,
que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor,
especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia
sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus
manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso,
quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito
pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia
esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor:
João Paulo II é Beato!
Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós
que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui
em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das
Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio,
delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas
e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos
estão unidos conosco através do rádio e da televisão.
Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato
João Paulo II quis intitular
Domingo da
Divina Misericórdia. Por isso, se escolhi esta data para
a presente celebração, foi porque o meu Predecessor, por um desígnio
providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer
da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de
Maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São
José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a
nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no
tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é
muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor
que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento sentimo-lo
muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.
"Felizes os que acreditam sem terem visto" (Jo
20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança:
a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa
atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma
Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um
Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé.
João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E
isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: "Feliz de
ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que
to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus" (Mt 16, 17).
O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o
Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna "Pedro", rocha sobre
a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna
de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje,
está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: "Feliz de ti,
Simão" e "felizes os que acreditam sem terem visto". É a
bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus
Pai para a edificação da Igreja de Cristo.
Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma
bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a
bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que
acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel:
"Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto
lhe foi dito da parte do Senhor" (Lc 1, 45). A
bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos
nos enche de alegria o fato de a beatificação de João Paulo II ter
lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno
d’Aquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa
de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são
chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da
ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença
pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um
dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que
a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e
São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a
primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria
aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Atos
dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos
em oração no Cenáculo (Act 1, 14).
Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é
justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual,
indicando aos recém-batizados as razões da sua esperança e da sua
alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte
inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo
exortativo, mas indicativo. De fato, escreve: «Isto vos enche
de alegria»; e acrescenta: «Vós amais Jesus Cristo sem O
terdes conhecido, e, como n’Ele acreditais sem O verdes
ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de
glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das
vossas almas» (1 Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo,
porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de
Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. "Esta é uma
obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos
nossos olhos", os olhos da fé.
Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos
brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada
figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos
Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27
anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à
medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a
Constituição
conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros
do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos,
religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria
celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo
singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła,
primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia,
participou no
Concílio
Vaticano II e bem
sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a
Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de
santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta
visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua
juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a
vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo
crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no
Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas
episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um
"M" na parte inferior direita e o lema "Totus tuus", que
corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort,
na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua
vida: "Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in
mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o
que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o
vosso coração, ó Maria" (Tratado da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem, n. 266).
No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito:
"Quando, no dia 16 de Outubro de 1978, o conclave dos cardeais
escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia,
disse-me: 'A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no
Terceiro Milênio'". E acrescenta: "Desejo mais uma vez agradecer ao
Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me
sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e sobretudo o
episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito
tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio
do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento
conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este
grande patrimônio a todos aqueles que são, e serão, chamados a
realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno que me
permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do
meu pontificado". E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo
II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com
estas palavras memoráveis: "Não tenhais medo! Abri, melhor,
escancarai as portas a Cristo!". Aquilo que o Papa recém-eleito
pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a
sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos,
invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus
–, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de
fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande
sensibilidade humana, este filho exemplar da Nação Polaca ajudou os
cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de
pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra,
ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de
liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de
crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem –
Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o
fio condutor de todas as outras.
Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo
consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o
marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi
esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem.
Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e
do seu "timoneiro" – o
Servo de Deus
Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus
ao cruzar o limiar do Terceiro Milênio, que ele pôde, justamente
graças a Cristo, chamar "limiar da esperança". Na verdade, através
do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu
ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de
Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na
história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao
marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente
reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia
autêntica da esperança, que se deve viver na história com um
espírito de "advento", numa existência pessoal e comunitária
orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas
expectativas de justiça e de paz.
Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência
de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato
Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de o
conhecer e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como
Prefeito da
Congregação
para a Doutrina da Fé,
pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a
minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela
sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre
me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no
encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências
do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no
sofrimento: pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas
permaneceu sempre uma "rocha", como Cristo o quis. A sua
humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo,
permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma
mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as
forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária
a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele
Jesus que diariamente recebe e oferece na Eucaristia.
Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque
acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do
Povo de Deus.
Amém. |