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Palavra de vida
Dom Urbano Allgayer
Evitando um banho de sangue
No ano de 1937 o Brasil e particularmente o Estado Gaúcho correram sério risco de um banho de sangue. Em 10 de novembro daquele ano, o presidente Getúlio Vargas dissolveu o Congresso Nacional, afastou os governadores que não concordavam com o regime, estabelecendo-se um estado autoritário. O instrumento do governo ditatorial seria o decreto-lei da ditadura, o assim chamado Estado Novo. O então governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, declarou não aceitar a deposição e, se preciso, usaria efetivos militares e civis do seu governo.
O exército pôs-se em prontidão. O governo federal enviou um esquadrão do exército, sob o comando do general Daltro Filho, com ordem de prender Flores da Cunha. Seguiram negociações, uma delas articulada pelo arcebispo de Porto Alegre. O monsenhor Leopoldo Neis, vigário geral e forte liderança do clero arquidiocesano foi encarregado pelo arcebispo Dom João Becker de tentar um diálogo e acordo entre o governador e o general.
O episódio terminou com a rendição de Flores da Cunha e em seu exílio no Uruguai. Comandante das revoluções de 1923, 24 e 26. Participara também da revolução de 1930 que, vitoriosa, pusera Getúlio Vargas na presidência ditatorial do Brasil. Mas o caudilho gaúcho não sossegou. Voltou do exílio, cumpriu dois anos de prisão na Ilha Grande e em 1945 elegeu-se deputado federal.
Aqui recordamos uma promessa de Flores da Cunha a Dom João Becker, arcebispo de Porto Alegre. O deputado Flores da Cunha foi incumbido de fazer o discurso de homenagem fúnebre, registrado nos arquivos da Câmara Federal. Recordo-me das seguintes colocações do orador: Dom João Becker foi grande líder da Igreja. Embora me fosse adverso nas eleições (?), reconheço seu espírito conciliador. Em 1937, quando fui injustiçado pelo governo de Vargas, eu estava decidido a resistir pelas armas ao golpe que desferiram contra mim, como governador do Rio Grande do Sul. No fervo da indignação, veio visitar-me o então arcebispo Dom João Becker. Lembrou-me uma promessa que eu lhe havia feito anos antes: Nunca mais irei derramar sangue de brasileiros. Resolvi cumprir a promessa. Em vez de ir à luta propus-me renunciar à violência e aceitar o duro exílio no Uruguai. O arcebispo de Porto Alegre salvou o Rio Grande e o Brasil de um banho de sangue, de dimensões imprevisíveis, em novembro de 1937, segundo o depoimento do deputado Flores da Cunha. |